Home / Colunistas / Cibelly Correia / Cabeça, igreja e fantasma: o Ceará fantástico de Socorro Acioli

Cabeça, igreja e fantasma: o Ceará fantástico de Socorro Acioli

Em Caridade, cabeça da estátua de Santo Antônio foi montada no chão e nunca foi unida ao corpo — Foto: Fantástico/Reprodução

Foi com uma cabeça. Não a minha, embora eu também tenha ficado meio fora de mim desde que li os livros de Socorro Acioli. A cabeça em questão é a de Santo Antônio. Aquela que, segundo alguns moradores da cidade de Caridade, no Ceará, virou muro. Ou monumento. Ou morada. A verdade é que ela nunca chegou ao topo do morro para encontrar seu corpo, mas encontrou o caminho certo para virar literatura (ou ponto turístico).

Desde que li Cabeça de Santo, uma atração quase mística me fez querer ir até Caridade e fazer uma reza ali mesmo, colada na cabeça, pedindo, talvez, um pouco do talento narrativo de Socorro… ou só agradecendo por ela transformar uma notícia em ficção.

Porque é isso que Acioli faz: ela enxerga encanto onde os outros veem o comum. Pega cidades pequenas, lendas locais, estátuas inacabadas, igrejas soterradas, e transforma tudo em universo fantástico. Uma mágica literária que mistura realidade com fantasia sem que a gente perceba onde começa uma e termina a outra.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Almofala (CE): soterrada por areia e ressurgida após quase cinco décadas Foto: Divulgação

Foi lendo Oração para Desaparecer que me peguei olhando fotos de Almofala, a de lá, em Portugal, e a de cá, no Ceará. Ambas emaranhadas em passado, fé e areia. E, mais uma vez, a autora fez da história um portal. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, aquela que ficou soterrada por décadas até ressurgir das dunas, virou enredo. E eu? Coloquei Almofala na lista de lugares para visitar. Urgente.

E então, como quem não quer nada, tropecei em A Bailarina Fantasma. Lá estava o Theatro José de Alencar, aquele monumento de ferro, vidro e assombro. Não bastava ser um dos mais belos do Brasil; ele precisava guardar também os ecos de uma bailarina cuja alma permaneceu ali, suspensa no tempo. Fui fisgada de novo, pela narrativa e pelo desejo de pegar a estrada. Preciso ver esse palco. Tocar nas grades. Ouvir, quem sabe, um sussurro.

E agora, cá estou eu, pensando em como ir até esses locais. Fazer um roteiro literário guiado pelas palavras de Socorro Acioli. Quero visitar cada cidade, ver um santo descabeçado, rezar na igreja de Almofala, entrar no teatro onde os fantasmas não assustam, apenas encantam. Quero viver um pouquinho do real que inspirou o fantástico.

Não sei exatamente como se monta um roteiro assim. Talvez nem seja preciso saber. Talvez o segredo esteja em seguir os rastros da autora, abrir seus livros como quem abre janelas para outros mundos. Porque, pela escrita de Socorro Acioli, é possível caminhar entre realidades, com os olhos no texto e o coração na estrada.

Marcado: