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Quando o livro caminha com a gente

Por Cibelly Correia

Ao abrir o livro Não gire o disco ao contrário, fui direto à dedicatória. Era para mim. O autor, Thiago Hanney, escreveu: “Tua peregrinação pela Paraíba inspirou um capítulo dessa história.” Sorri. Aquele tipo de sorriso que só nasce quando a gente se reconhece em algo que parecia distante. Ou quando uma lembrança vira página.

Eu não sabia bem o que esperar. Mas lá estavam elas: as cidades por onde meus pés já tinham passado. Areia, Alagoa Grande, Bananeiras. A Rota Cultural Caminhos do Frio surgia no romance como uma personagem viva. E que bonita é a ideia de um livro que caminha, que se move com as estradas, com os sotaques, com as festas e os cheiros do nosso interior.

A Rota recomeça nesta segunda-feira, dia 30 de junho, em Areia. Já virou tradição no calendário cultural da Paraíba. Um  roteiro que mistura arte, história, cultura, fé e aquele friozinho raro no nosso inverno tropical. E agora, também, literatura.

Thiago Hanney vai além de apenas citar o evento. Ele entrelaça sua ficção às vivências locais. Em seu romance, um professor retorna à cidade natal após a morte da avó. Lá, reencontra memórias, afetos e a si mesmo. Ivam, o protagonista, passa por uma transformação íntima e estética ao aceitar o convite do tio Dagmar, um transformista de São Paulo, para se tornar drag queen.


Entre cartas para Xuxa, fantasmas da infância e silêncios que enfim se rompem, o livro trata de temas sensíveis com delicadeza: homofobia, identidade, repressão. E faz isso com a leveza de quem entende que todo orgulho é também memória e resistência.

Hoje, 28 de junho, é Dia do Orgulho LGBT+. E há algo profundamente simbólico em celebrar essa data com uma história que se passa entre as serras e memórias da Paraíba. A Rota Caminhos do Frio, já encantadora por natureza, ganha ainda mais força quando vira cenário de uma narrativa que nos convida a pensar, sentir e, talvez, mudar.

Se você ainda não conhece o livro, recomendo. Não apenas porque homenageia nossa terra, mas porque nos lembra de que ser quem somos, com todas as nossas cores, é também um ato de coragem. E que, às vezes, tudo começa ao abrir um livro.

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