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O Último Azul e sua propaganda enganosa

Chegou aos cinemas brasileiros o último trabalho do diretor Gabriel Mascaro, o filme O Último Azul. Admito que ainda não vi um filme premiado dele chamado Boi Neon, vencedor do Prêmio Especial do Júri na na Mostra Orizzonti, em 2015, e do prêmio de Melhor Filme Líbero-Americano no Festival Especial de Cinema de Guadalajara. Porém eu aprendi a admirar o trabalho do Gabriel por causa do longa Divino Amor, filme excelente com Dira Paes no elenco. Portanto fui ver a nova produção com altas expectativas.

O filme me enganou. Quem vê o trailer e lê a sinopse, pode – errôneamente, assim como eu – achar que o enredo vai tratar de assuntos mais voltados à fuga da vida monótona de idosa da protagonista, passando pela vida na natureza, viagens psicotrópicas através do pingo de gosma de um molusco e as consequências que este último desenrolará, mas o filme mostra muitíssimo mais do que isso.


O enredo se passa num futuro distópico do Brasil, onde o governo atual da época tem uma política pública rígida sobre a vida dos idosos. Cada regra obrigatória, que a Tereza (personagem principal interpretada pela Denise Weinberg, grande atriz de filmes, séries e minisséries produzidas pela Globo) tenta desesperadamente fugir dela, nos traz uma reflexão profunda sobre como os sonhos morrem. Morrem quando a independência da pessoa é retirada dela, quando o direito de ir e vir é escolha dos filhos, quando usar o próprio dinheiro é limitado, tudo criado por um governo que impõe aos idosos que morem longe da convivência da família e da sociedade.

A fala da protagonista que mais me marcou foi “Tem coisa que eu ainda quero fazer”. Isso é um soco no estômago, pois nos remete ao quanto a gente passa a vida na rotina, trabalhando para pagar contas, com objetivos que nunca alcançamos, sempre achando que ainda temos tempo, que ainda teremos vigor para fazer coisas que nunca chegam, mas que a esperança de realizar sonhos ainda está lá, à frente, como se fôssemos o burrinho comma cenoura amarrada numa vara presa em si mesmo, que ele anda e ela anda também, nunca chegando no momento de comê-la.

O filme entrega muito mais do que promete. Nosso querido, talentoso e  reconhecido tanto no Brasil como internacionalmente, Rodrigo Santoro, dá tanto show de convencimento quanto a Denise, e o diretor Gabriel continua mandando muito bem. O longa também conta com cenas belíssimas da Amazônia numa fotografia encantadora de Guillermo Garza.

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