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Como a Kassuá une empreendedorismo, cultura e turismo para valorizar a Paraíba e o Nordeste

Empreendedorismo, cultura e turismo se encontram em um projeto que valoriza o que o Nordeste tem de mais autêntico.

Durante a pandemia, muitos negócios nasceram do desafio de se reinventar. Foi assim que surgiu a Kassuá, um mercado criativo de produtos locais que promove o consumo consciente e a valorização da cultura nordestina. À frente da marca está Renata Almeida, paraibana de Campina Grande, que transformou um gesto solidário em um projeto de impacto social, econômico e cultural. Conversamos com Renata, fundadora da Kassuá, para entender como o empreendedorismo pode ser uma ferramenta de fortalecimento da identidade regional, e também um elo entre turismo, cultura e desenvolvimento local.

  • Como nasceu a ideia de criar a Kassuá?

Renata Almeida — A Kassuá nasceu em um momento muito delicado. Eu morava fora do Brasil e voltei para Campina Grande, minha cidade natal, durante a pandemia. Foi um período difícil, com perdas na família e muita gente desempregada. Uma cunhada minha, por exemplo, começou a fazer um doce que a mãe dela fazia na infância, o Doce Maria Bonita,  para tentar gerar renda. Quis ajudar e comecei a comprar os doces e enviar para amigos, que adoraram a ideia. Percebi então que o problema dela era o mesmo de muitos: pequenos produtores sem onde vender. Criamos uma lojinha no Instagram e, a partir de uma iniciativa para ajudar uma pessoa, surgiu uma vitrine para vários. Eu costumo dizer que a Kassuá me encontrou, não foi um projeto planejado, mas um movimento colaborativo que cresceu naturalmente. Sempre acreditei no consumo local, mas naquela época as feiras estavam suspensas e os produtores sem canais de venda. Assim, a Kassuá nasceu como uma vitrine on-line para conectar produtores e consumidores. No início, tudo foi voluntário. De 2020 a 2024, atuei como curadora, organizando, divulgando e apoiando os produtores, com o propósito genuíno de ajudar.

“Eu costumo dizer que a Kassuá me encontrou, não foi um projeto planejado, mas um movimento colaborativo que cresceu naturalmente.”

  • Como foi a transição de um projeto voluntário para um negócio estruturado?

Renata Almeida — No início, tudo era feito em casa. A produção começou com produtos individuais, mas logo veio a ideia dos kits e presentes, principalmente no Natal de 2020. Eu pensava: “Já que o produto não está vendendo tanto sozinho, vamos montar caixinhas bonitas e transformar em presentes”. Comecei a ligar para amigos sugerindo que presenteassem com produtos regionais. No final de 2023, precisei de um espaço físico, e aí nasceu a loja Kassuá, em João Pessoa. Mas eu não queria apenas uma loja: queria um ponto de encontro, um espaço de convivência, onde produtores e clientes pudessem se reunir, conversar e trocar experiências. Hoje, vejo mais amigos do que clientes, é uma rede de apoio e valorização do que é nosso.

 

Loja Kassuá
Loja Kassuá
  • O público da Kassuá é formado mais por turistas ou por moradores locais?

Renata Almeida — Atendemos os dois, mas o maior desafio é educar o público local para valorizar o que é produzido aqui. O turista naturalmente busca levar uma lembrança da Paraíba; já o morador precisa perceber que consumir localmente é fortalecer a própria economia. Quando isso se torna um hábito, o consumo passa a ser sustentável.

  • Como a Kassuá se conecta com a economia criativa e a sustentabilidade?

Renata Almeida — A economia criativa está diretamente ligada à geração de renda e valorização do que é local, cultura, artesanato, gastronomia. Sustentabilidade não é só meio ambiente; ela se apoia em três pilares: o ambiental, o social e o econômico. Não adianta ter um produto bonito, artesanal, se ele não gera renda. O talento local precisa ser valorizado de forma que traga desenvolvimento social e econômico para a comunidade. Quando a gente fala em economia criativa, é isso: criar, sim, mas de maneira que a criação sustente quem produz.

  • Como é feita a curadoria dos produtos?

Renata Almeida — Tudo começou com uma pesquisa por produtos locais. Naquela época, percebi que muitos artesãos e pequenos produtores viviam uma fase muito difícil. Campina Grande, por exemplo, tinha passado por um “São João sem São João”, um mês de junho sem festa, sem turistas e sem a oportunidade de vender o que as famílias haviam produzido o ano inteiro. Então, ampliamos o olhar: não eram apenas os pequenos produtores de gastronomia, mas também os de artesanato que estavam sofrendo. Passamos a reunir esses dois universos, o alimento e o artesanato, porque acredito que ambos representam a identidade cultural de um povo.

  • E como é divulgar e promover a cultura nordestina? Quais são os maiores desafios como empreendedora?

Renata Almeida — O nosso maior desafio é esse trabalho constante de reeducação do consumo: insistindo na ideia de valorizar o local, consumir de quem produz aqui, conhecer o produtor, entender o valor do que vem da nossa terra. Promovemos oficinas e encontros exatamente com esse propósito,  plantar essa sementinha da valorização. Quando você compra uma geleia de caju feita aqui, com caju e açúcar, está consumindo um produto fresco, feito na época certa, com frutas da nossa região. E mais: está gerando renda em cadeia, para quem faz o rótulo na gráfica local, para o motoboy que entrega, para quem produz as embalagens. Isso é economia circular, é prosperidade.

  • A Kassuá também realiza oficinas e degustações. Como surgiu essa ideia?

Renata Almeida — As oficinas nasceram da vontade de aproximar as pessoas dos produtos locais. Eu percebi que, se você não conhece, você não consome, e, se não consome, não indica. A Paraíba é um grande celeiro de artesanato e de produção de leite de cabra, por exemplo. Temos queijos premiados nacionalmente, mas o próprio paraibano muitas vezes não conhece ou não consome. Havia uma resistência enorme, especialmente com o queijo de cabra. As pessoas torciam o nariz sem nem experimentar. Então eu pensei: “preciso fazer com que provem”. Foi assim que comecei as oficinas de degustação, primeiro nas feiras e eventos, e depois aqui na Kassuá, reunindo pequenos grupos para conversar, provar e ouvir as histórias por trás de cada produto. Quando alguém se conecta com a história, passa a valorizar aquele produto. Isso transforma a forma de consumir.

Já fizemos oficinas de vinhos e queijos, de cervejas artesanais e de cachaças paraibanas. A de vinhos acontece pelo menos uma vez por mês, geralmente em parceria com restaurantes. Também realizamos oficinas voltadas para mulheres, que unem degustação e atividades manuais, como bordado, pintura de taças ou de biscoitos. Recentemente, fizemos as “Quintas da Cachaça”, em parceria com o pessoal da Brasil Cachaças. Toda quinta, reunimos um grupo para degustar e conversar sobre cachaça e queijos produzidos aqui na Paraíba. É incrível ver como as pessoas saem com outra visão: aprendem a apreciar, a entender o processo, a conhecer quem produz e a se conectar com o trabalho local. As informações sobre as oficinas estão sempre no nosso Instagram, junto com o calendário de eventos.

“Se você não conhece, você não consome, e, se não consome, não indica…”

  • A Kassuá também tem promovido expedições para conhecer os produtores e as regiões. Como funciona essa iniciativa?

Renata Almeida — Temos reunido os amigos da Kassuá para visitar pequenos produtores e conhecer de perto seus trabalhos. A última expedição, feita em parceria com uma agência de turismo, foi para a cidade de Mari, onde visitamos a produção da cerveja artesanal Mandyra. Mari é uma grande produtora de mandioca, e tivemos a oportunidade de ver todo o processo de produção da cerveja e conversar com a comunidade local. Agora estamos planejando a próxima viagem, que será para o município de Dona Inês, para conhecer o trabalho de Sérgio Teófilo e das mulheres da Comunidade Quilombola.  Essas visitas são muito inspiradoras e fortalecem ainda mais a conexão entre quem produz e quem consome.

 

A Kassuá é um movimento de valorização da cultura paraibana e nordestina.  Cada produto, oficina ou expedição é uma forma de recontar a história do Nordeste, pela voz de quem produz e vive essa cultura todos os dias.

Instagram: @Kassuabr

 

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