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Fest Aruanda 2025: Lendo o Mundo

Por Manu Mariz

Está acontecendo em João Pessoa, o maior festival de cinema do Estado: o Fest Aruanda – Festival do Audiovisual Internacional da Paraíba. O evento, que segue até esta quarta-feira, dia 10, destaca produções realizadas com apoio de editais e leis de incentivo à cultura, mas também abre espaço para shows, debates e lançamentos literários que enriquecem ainda mais a programação.

Entre as sessões que acompanhei nos últimos dias, um filme em especial me arrebatou. Na mostra Cinema & Educação, o média-metragem Lendo o Mundo, de Catherine Murphy e Iris de Oliveira, apresentou um trabalho de pesquisa impecável, com imagens raras e um resgate histórico poderoso. O filme revisita a primeira tentativa de Paulo Freire de alfabetizar crianças e, sobretudo, adultos das zonas rurais. Uma experiência que não deu certo como ele esperava, mas que foi justamente o ponto de virada para a criação da metodologia mais revolucionária da educação brasileira, um método que depois seria copiado, estudado e celebrado no mundo inteiro.

A sessão foi marcada por um momento de profunda emoção: a presença de Paulo Alves de Sousa, o seu Paulo da carroça, um dos poucos alunos daquela experiência ainda vivos. Antes da exibição, ele dividiu com o público suas memórias. Ele aparece no filme jovem, firme, fazendo seu discurso de conclusão de curso diante do então presidente João Goulart, que foi conhecer de perto o projeto. Ver aquele homem hoje, décadas depois, contando o impacto de ter aprendido a ler e escrever, foi uma daquelas experiências que fazem o cinema transbordar para a vida.

Assistir às imagens históricas, ouvir os relatos e perceber como a alfabetização transformou a autoestima e a consciência daqueles trabalhadores foi profundamente tocante. Era visível o quanto eles passaram a se sentir parte do mundo que sempre habitaram, agora com voz, compreensão e pertencimento. O cinema, nesse momento, cumpre um dos seus papéis mais bonitos: reabrir janelas da memória, lembrar o que foi grande, valorizar o que foi justo e reforçar a importância de jamais repetir o que foi ruim.

Viva o cinema. Viva a educação.

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