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Turismo religioso cresce no Brasil e aponta a Paraíba como destino estratégico de fé e cultura

O turismo religioso no Brasil se consolida como um dos segmentos que mais crescem dentro da atividade turística, movimentando milhões de viajantes todos os anos e gerando impactos diretos na economia, na cultura e no desenvolvimento regional. Muito além das grandes romarias, o setor passa por um processo de amadurecimento, exigindo planejamento, políticas públicas, infraestrutura e respeito à sacralidade dos espaços.

Na Paraíba, esse cenário revela um potencial expressivo. O estado reúne santuários consolidados, igrejas históricas, eventos religiosos de grande porte e manifestações populares que, quando organizadas de forma estratégica, podem posicionar o território como referência no turismo religioso no Nordeste.

Sidnésio Moura

Para aprofundar esse debate, o No Mundo do Turismo entrevistou Sidnésio Moura, consultor de turismo e vice-presidente da Associação Brasileira de Turismo Religioso (ABTR). Na conversa, ele analisa o crescimento do turismo religioso no Brasil, a importância da diversidade religiosa, os principais destinos nacionais, os desafios do setor e, principalmente, o caminho para estruturar o turismo religioso na Paraíba de forma sustentável.

1 – Como você avalia o crescimento do turismo religioso no Brasil nos últimos anos e quais fatores têm impulsionado esse segmento?

Sidnésio Moura – O turismo religioso no Brasil tem apresentado crescimento notável, consolidando-se como um dos principais segmentos turísticos. Estima-se que, antes da pandemia, movimentava mais de 30 milhões de viajantes ao ano. Esse avanço é impulsionado por diversos fatores: a força da fé e da religiosidade popular, o aumento da infraestrutura em santuários, o apoio de políticas públicas de regionalização do turismo, além da busca crescente por experiências espirituais transformadoras. A valorização do patrimônio sacro e o apelo à identidade cultural regional também são vetores importantes.

2 – De que forma a diversidade religiosa brasileira influencia a criação de novos roteiros turísticos?

Sidnésio Moura – A diversidade religiosa do Brasil é uma riqueza imensa e amplia significativamente a oferta de roteiros turísticos. Temos grandes manifestações católicas, como o Círio de Nazaré, mas também celebrações em terreiros afro-brasileiros, congressos evangélicos, encontros espíritas e tantas outras expressões de fé. No entanto, ainda falta muito para o desenvolvimento de roteiros que consigam ofertar essa diversidade de forma estruturada. A Igreja Católica Apostólica Romana ainda é a que mais incentiva e promove o turismo religioso no Brasil. Por isso, é fundamental que as Secretarias Estaduais de Turismo criem Grupos de Trabalho voltados ao turismo religioso, com a participação das religiões que possuem oferta e demanda turística, como já acontece no Paraná e no Rio Grande do Norte.

3 – Quais são hoje os principais destinos de turismo religioso no Brasil e o que faz esses lugares se destacarem?

Sidnésio Moura – Entre os principais destinos estão Aparecida (SP), Juazeiro do Norte (CE), Trindade (GO), Canindé (CE), Bom Jesus da Lapa (BA), Belém (PA), com o Círio de Nazaré, e Nova Trento (SC). Esses locais se destacam pela capacidade de acolhimento, pelo calendário litúrgico intenso, pelo vínculo afetivo com os fiéis e por uma infraestrutura consolidada.

O Santuário Nacional de Aparecida, por exemplo, recebeu 9,057 milhões de visitantes em 2024 e 10,48 milhões em 2025, registrando crescimento de 15%. Já a Festa do Divino Pai Eterno, em Trindade, reuniu cerca de 4,5 milhões de pessoas. Esses números mostram claramente o impacto econômico e social no setor.

4 – O turismo religioso vai além das grandes romarias. Que outras experiências têm atraído visitantes?

O turismo religioso vai muito além da participação em romarias e peregrinações. Embora essas manifestações sejam expressões importantes da fé popular, elas não definem, por si só, o que é turismo religioso.

Sidnésio Moura – O turismo religioso vai muito além da participação em romarias e peregrinações. Embora essas manifestações sejam expressões importantes da fé popular, elas não definem, por si só, o que é turismo religioso. Peregrinar não é automaticamente fazer turismo religioso. Para que isso aconteça, é necessário planejamento, infraestrutura, acolhimento e políticas públicas claras, integrando a experiência de fé a um sistema turístico organizado.

O turismo religioso exige organização territorial, preparação dos espaços sagrados, capacitação de agentes locais e uma visão integrada entre fé, cultura e desenvolvimento. Muitos destinos ainda carecem dessa estrutura e apostam apenas na construção de grandes monumentos, que, sem gestão adequada e proposta pastoral, correm o risco de se tornar espaços caros, subutilizados e sem significado espiritual.

O que cresce de forma consistente são experiências que unem espiritualidade, contemplação e imersão cultural, como retiros, congressos, trilhas devocionais, caminhos peregrinos e vivências em comunidades de fé.

O turismo religioso exige organização territorial, preparação dos espaços sagrados, capacitação de agentes locais e uma visão integrada entre fé, cultura e desenvolvimento.

 

Santuário Padre Ibiapina – Solânea ( PB)

5 – Quais destinos da Paraíba já se destacam no turismo religioso?

Sidnésio Moura – A Paraíba possui uma oportunidade concreta de unir espiritualidade, patrimônio cultural, história e desenvolvimento territorial. Entre os destinos consolidados ou em consolidação, destaco:

  • Guarabira, com o Santuário Memorial de Frei Damião.
  • Solânea, com o Santuário e Museu Padre Ibiapina.
  • Patos, com o Parque Religioso Cruz da Menina.
  • Sousa, com o Santuário do Bom Jesus Eucarístico Aparecido.
  • João Pessoa, com seu Centro Histórico e igrejas seculares.
  • Campina Grande, com a Catedral de Nossa Senhora da Conceição e o Santuário da Divina Misericórdia.
  • Areia, com igrejas históricas tombadas pelo IPHAN e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, importante pela sua história ligada à devoção popular e à cultura afro-brasileira.
  • Pombal, Igreja do Rosário dos Pretos,  patrimônio de fé e resistência com mais de 300 anos.
Santuário Cruz da Menina – Patos (PB) – Foto: Túlio Xavier

Cidades com potencial de crescimento:

  • Bananeiras e Araruna – Com igrejas históricas, festas tradicionais e vivência devocional comunitária que podem ser integradas em roteiros temáticos regionais, atraindo visitantes em busca de espiritualidade e vivências culturais.
  • Santuário de Deus Pai Todo-Poderoso (Malta) – Inaugurado recentemente, o santuário ainda não está consolidado como destino de turismo religioso, mas apresenta um grande potencial, desde que se respeite a sacralidade do espaço, seja garantida a preparação pastoral adequada, e se estabeleça um planejamento integrado com políticas públicas, infraestrutura e acolhimento qualificado. Sem isso, há o risco de se tornar um “monumento vazio”, desprovido de espiritualidade viva e sustentabilidade turística.

Igreja Matriz Nossa Senhora do Livramento – Bananeiras (PB) – Foto: Gilberto Batista

6 – Qual o papel das festas populares e manifestações religiosas no fortalecimento do turismo paraibano?

Sidnésio Moura – As manifestações religiosas populares — como festas de padroeiros, procissões, novenas e celebrações tradicionais — não são, por si sós, turismo religioso, mas sim expressões legítimas da fé do povo. Quando permanecem apenas no âmbito comunitário, cumprem sua função pastoral e cultural. No entanto, para que se tornem efetivamente componentes do turismo religioso, é necessário que estejam inseridas em um processo mais amplo de planejamento estratégico, hospitalidade qualificada, estruturação territorial e políticas públicas consistentes.

A festa de um padroeiro, por exemplo, pode se transformar em produto turístico religioso quando articulada com o trade turístico local, com infraestrutura para receber visitantes, com sinalização adequada, qualificação dos agentes de acolhimento e ações de comunicação que respeitem a sacralidade do evento. Isso transforma uma manifestação local em uma âncora de desenvolvimento regional, capaz de gerar renda, fortalecer o sentimento de pertença e ampliar a evangelização.

Turismo religioso não é evento pontual, não é apenas romaria ou visita a monumento, é um processo contínuo que une fé, técnica, acolhimento e missão.

Quais são os principais desafios e oportunidades para o turismo religioso nos próximos anos?

Sidnésio Moura – Os desafios passam pela infraestrutura inadequada, pela informalidade, pela falta de dados específicos, pela ausência de planejamento territorial e pela carência de capacitação técnica. Por outro lado, há grandes oportunidades com a ampliação de roteiros temáticos, a profissionalização da hospitalidade, o investimento público e o uso da tecnologia na promoção dos destinos.

O turismo religioso, quando bem planejado, é um vetor de fé, cultura, economia e dignidade para os territórios sagrados.

 

 

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