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O perigo mora ao lado… Ou na sua cama!

Por Manu Mariz

De vez em quando, faço questão de assistir a documentários do gênero true crime. É uma forma de sair um pouco da fantasia, encarar a realidade e, quem sabe, aprender a reconhecer padrões de comportamento perigosos. A vida pede equilíbrio, inclusive entre o entretenimento e o confronto com temas duros, mas necessários.

Assisti recentemente ao documentário da Netflix Sean Combs: O Acerto de Contas, produzido pelo rapper 50 Cent, que acompanha os últimos dias de Sean Combs, mais conhecido como Puff Daddy ou P. Diddy, antes de sua prisão e condenação por acusações de tráfico sexual. Este já é o quinto documentário sobre o caso; os outros estão disponíveis na HBO Max, na Globoplay e na Disney+, cada um abordando o escândalo sob recortes diferentes.

Na produção da Netflix, o principal diferencial está no uso de imagens gravadas pelos próprios funcionários de Combs. O espectador acompanha o artista isolado em um hotel, em ligações constantes com advogados, secretária e amigos, tentando administrar o colapso de sua carreira e a iminência da prisão. Fora esse acesso mais íntimo, os depoimentos e personagens apresentados são semelhantes aos das outras produções sobre o caso.

Ainda assim, o documentário cumpre um papel relevante. Em um contexto de debates cada vez mais urgentes sobre violência doméstica, abuso de poder e feminicídio, essas obras reforçam a importância da denúncia e do rompimento do silêncio. Elas mostram como criminosos desse perfil conseguem permanecer livres por tanto tempo justamente porque suas vítimas são silenciadas pelo medo, pela vergonha e pela descrença.

Documentário A Vizinha Perfeita

Na mesma plataforma, o filme documentário A Vizinha Perfeita propõe uma experiência narrativa completamente diferente. A história gira em torno de uma idosa que atira contra uma vizinha e é construída quase integralmente a partir de imagens captadas pelas câmeras corporais dos policiais e pelas câmeras da delegacia. Apenas um único momento, o desfecho do julgamento, é registrado por uma câmera profissional.

Essa escolha estética aproxima o espectador dos acontecimentos de forma quase visceral. A sensação é a de estar dentro da cena, vivenciando as tensões em tempo real, como se tudo fosse parte de um reality show perturbador, onde não há espaço para distanciamento emocional.

O documentário deixa lições incômodas. Ele mostra como pessoas idosas, frequentemente vistas como inofensivas, não devem ser subestimadas e como situações aparentemente banais, como brincadeiras infantis ou conflitos cotidianos, podem se acumular e culminar em tragédias irreversíveis.

Se a arte muitas vezes serve para aliviar o peso da vida real, esses documentários cumprem a função oposta. Eles nos lembram de que a realidade também precisa ser encarada, para que não romantizemos crimes nem ignoremos sinais de violência que se apresentam de forma sutil no cotidiano.

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