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Ecos do passado na Fazenda Tanques

Remígio, interior da Paraíba. A tarde era de céu aberto, mas um certo peso no ar anunciava que aquela visita não seria apenas turística. A primeira parada da Rota Cultural Caminhos do Frio me levou à Fazenda Tanques, uma construção de 1823, privada, mas aberta à memória coletiva. Um lugar onde a história se impõe não só nas paredes, mas também no silêncio.

Às margens da BR-104, a apenas seis quilômetros do centro da cidade, a fazenda parece repousar em paz. Mas basta cruzar seus portões para perceber que há algo que pulsa, que sussurra, que insiste em não ser esquecido. Os alicerces antigos guardam mais que o barro e o suor do tempo: guardam vidas. Ou melhor, as dores de vidas marcadas por uma liberdade negada.

A casa-grande, ainda imponente, divide o espaço com as ruínas da senzala, do curtume, dos tanques de água e de uma área que pouco se fala, mas muito se sente: a maternidade das mulheres negras escravizadas.

Ali, entre ruínas e sombras que parecem parar o tempo, as escravizadas eram levadas para parir. Sem acolhimento. Sem alívio. Sem escolha. A história da maternidade naquele espaço é como um eco incômodo, que ainda hoje se faz ouvir, literalmente.

Socorro Cavalcante, proprietária da fazenda, conta que, em algumas noites, é possível escutar o choro de crianças. Gritos  que atravessam os séculos como um lamento que se recusa a ser esquecido.

Não é surpresa, então, que os jornalistas presentes na visita  relatem sensações difíceis de explicar. Um tipo de dor impregnada nas pedras e no ar. É como se o passado ainda estivesse vivo, exigindo que olhemos para ele sem desviar o olhar.

Conhecendo as ruínas da maternidade das negras escravizadas

A fazenda é bem preservada, é um monumento ambíguo: boa em sua estrutura, sempre trazendo um belo entardecer, mas profundamente marcada por um passado de sofrimento. E é exatamente esse contraste que torna a visita um exercício necessário de memória, de empatia, de reconhecimento.

Estar na Fazenda Tanques é um mergulho em nossas raízes mais profundas e mais incômodas. É entender que a história do Brasil não está apenas nos livros, mas nas paredes rachadas, nas ruínas que resistem, e nos fantasmas, reais ou simbólicos, que nos pedem para lembrar.

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