Quando o Brasil é o maior em algo ruim

Por Manu Mariz

Estamos acostumados em notícias dizendo que o Brasil é o maior do mundo em coisas boas: maior Carnaval, maior futebol em todas as épocas (de Pelé, passando por Romário a Ronaldo), maior piloto (Ayrton Senna)… Mas e quando temos também o título de maior acidente radiológico do mundo, como contar essa história?

Fernando Coimbra (Enforcados/O Lobo Atrás da Porta) dirige a minissérie Emergência Radioativa, criada por ele juntamente com Gustavo Lipsztein, que conta esse ocorrido com muita responsabilidade e pesquisa. Ganhador do título de maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, o incidente aconteceu em Goiânia – GO em 1987, matou quatro pessoas, deixou dezenas com sequelas e centenas de pessoas contaminadas.

Com apenas cinco episódios, o diretor e os produtores conseguem explicar esse complexo acontecimento em forma de linha do tempo, passo a passo de como o pó de Césio-137 foi espalhado pela cidade. Com uma produção muito bem ambientada no fim dos anos 1980, e sem aquele exagero de chamar TODOS os carros antigos da cidade para fazer figuração, vamos descobrindo, concomitantemente, como o ser humano pode ser ruim ou bom.

Num Brasil pós ditadura, que já veio também por ser contra educar os pobres, vê-se o produto desse tempo: uma população brutalizada pela violência e sem justiça, ignorante por falta de educação da escola e prejudicando a resolução de problemas por egoísmo. E tudo isso é desencadeado pela necessidade de encontrar renda por parte de quem precisa e se encontra com a irresponsabilidade daqueles que deveriam arcar com o descarte de produto tóxico e não o fizeram para economizar dinheiro.

Mas também é coisa deste mesmo povo se solidarizar, se arriscar para cuidar dos demais, procurar ajuda fora, dividir uma roupa, uma passagem, um pão, deixar a família segura em casa para protegê-la e se jogar na incerteza para colaborar com uma causa.

A produção da Netflix conta com grande elenco nacional. Não pode deixar de ter no trabalho de Fernando a atriz Leandra Leal, porém, desta vez, ela não é a protagonista, mas faz o papel de uma cientista de física. Conta ainda com os veteranos Paulo Gorgulho, Tuca Andrada e Emilio de Mello. E a nova geração está representada por Johnny Massaro, Marina Merlino, Bukassa e Alan Rocha.

Esta série é essencial para saber mais sobre um acontecimento da história do nosso país que serve de alerta enquanto sociedade que somos, sobre quem deve ser o detentor do conhecimento, sobre responsabilizar políticos e empresários e muito mais. São várias camadas de reflexão que todos deveriam ter e todos, que já conseguem entender sobre causa e consequência, deveria assistir. Deveria passar nas escolas e toda família em casa ver junta. E, mais uma vez, o brasileiro conseguiu superar os obstáculos e dar a volta por cima, característica tipica de nosso povo.

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