Home / Colunistas / Manu Mariz / O elefante branco na sala: não gostar de O Agente Secreto

O elefante branco na sala: não gostar de O Agente Secreto

Por Manu Mariz

Precisamos falar sobre um fenômeno que vem crescendo à medida em que também crescem a fama e os prêmios do filme O Agente Secreto: as pessoas que não gostaram do filme, não acharam a atuação de Wagner Moura tão boa assim e estão com medo de tocar no assunto por causa da retaliação. Algumas pessoas tem me procurado para desabafar e dizem não ter coragem de falar em qualquer grupo de pessoas que o longa desagradou, porque sabe que será massacrado pelos colegas, amigos, parentes. Outras pessoas também me perguntam o que realmente achei da obra, se teve algo que eu não gostei, procurando alguma legitimação do que elas mesmas acharam de ruim.

Deixando de lado aqui as questões das pessoas que se obrigam a defender ou criticar negativamente a produção somente por questões políticas, sem nenhum critério cinematográfico, vou falar que sim, o filme não é um 10 de 10 pra mim, é um 8 de 10. Isso quer dizer que gostei sim, achei interessante, engraçado, me diverti e me comovi, mas teve sim partes em que eu achei que poderia ser melhor. Eu, por exemplo, achei a parte da perna cabeluda um recorte fora de contexto. Apesar das pessoas usarem roupas dos anos 70, tinha cara de coisa nova, saiu da proposta. Outras pessoas, como eu, gostaria de ter visto as cenas de quem foi que atirou em quem (para não dar spoilers), mas fez parte do projeto do diretor/produtor deixar coisas em aberto para a criatividade do espectador trabalhar. Muita gente não gosta disso e tá tudo bem!

Eu sou totalmente contra dizer que as pessoas que não gostam de determinada arte “não entendeu” ou “não tem conhecimento”, “não sabe do que se trata” porque cada ser humano é um universo, um quebra-cabeça único e cada pessoa lê o mundo – e as artes – com o que tem por dentro. Até o momento pelo qual a pessoa está passando influencia na absorção do que ela está recebendo. Então não sou de acordo com rechaçar as pessoas porque elas nem veem, sentem e pensam iguais a nós nesse quesito.

Muitas pessoas foram assistir ao penúltimo filme de Kleber Mendonça Filho (diretor/roteirista e produtor de O Agente Secreto), Retratos Fantasmas, achando que seria o próximo Bacurau ou O Som ao Redor, mas saíram decepcionadas. Eu gostei da parte de vídeos antigos, não dá parte nova. Mas precisamos lembrar que é a assinatura de um artista, é a digital de Kleber que está ali, o jeito Kleber de se fazer cinema. Quem gostou de Ainda Estou Aqui nunca sonhe que Kleber faria um filme daqueles, assim como diretor dele, Walter Salles, nunca faria um filme fora da caixinha como Bacurau, e tudo bem, gente! Vivam os estilos! Já pensou se todos fossem iguais? Que tédio que seria!

Os cinemas foram lotados na estreia de Retratos Fantasmas e também de O Agente Secreto somente por causa do nome de Kleber. Nós, que gostamos de arte, fazemos isso. Parte da população só foi aos cinemas ver este último pro que saiu muito na mídia, ganhou prêmios e foi indicado ao Oscar. Já o grande cineasta Francis Ford Coppola teve prejuízo de milhões de dólares em seu filme Megalópolis e está vendendo seus bens para cobrir as dívidas do filme. Acontece. Nem todo artista agradará 100% das vezes e vocês viverão para ser o seu artista preferido os desagradar um dia.

Todos temos ressalvas sobre os erros do Oscar, mas ainda é o maior prêmio do cinema no mundo e traz sim visibilidade. Que seja! Nosso bom cinema merece estar nos holofotes todos, para agradar ou desagradar.

Muito se fala que a atuação de Wagner Moura não está “essas coisas todas”, “ele está melhor em outras produções”, “ele está muito tempo do filme sem expressão”… Eu também concordo que, por alguns momentos do filme, eu fiquei esperando uma atuação mais parecida com Bryan Cranston em Breaking Bad (morrendo de medo, mas sustentando a pose), mas talvez ele quis tentar passar que não tinha medo da polícia, vai saber!

Quem tem experiência com premiações cinematográficas já está cansado de saber que nem sempre o que você acha, ou que todos acham, que foi melhor ganha. Às vezes ganha atrasado porque mereceu em outro ano, ou ganha pelo conjunto de todos os trabalhos, ou por campanha cara que funcionou, os demais apenas deram azar de cair naquele ano. Eles que lutem! Nossas Fernanda Montenegro e Fernanda Torres também perderam as estatuetas por questões de lobby e etarismo. Como todos os humanos, os votantes das premiações também erram e também tem seus motivos próprios, sejam eles escusos ou não.

Então vamos parar de brigar e de afastar nossos irmãos amantes da sétima arte por conta de divergências tão intrínsecas ao ser humano e, ao invés disso, trazer todos para o diálogo sobre cinema, enriquecer, com nossas ideias diferentes, as discussões e com respeito. Todos com bom caráter em suas afirmações merecem fazer parte desta grande família, que é a cinefilia.

Marcado: