Home / Colunistas / Cibelly Correia / Viagem a Portugal com Saramago e Porchat

Viagem a Portugal com Saramago e Porchat

Gosto de encontrar projetos que fazem a literatura sair da estante e caminhar pelo mundo. Talvez porque viajar, no fundo, seja também um ato de leitura: a gente interpreta paisagens, decifra cidades, tenta entender as pessoas. Foi assim que, em uma pesquisa quase casual, me deparei com o projeto de Fábio Porchat para a TV, no qual ele refaz os roteiros descritos por José Saramago em Viagem a Portugal.

Livro de Saramago

Mais de quatro décadas depois da publicação do livro, o humorista brasileiro decide seguir os passos do escritor português. Não para criar um guia prático, desses que indicam horários e preços, mas para experimentar o país a partir de um olhar sensível, curioso e humano, exatamente como Saramago propôs.

Depois de assistir aos episódios, senti vontade de ler o livro. Queria acompanhar o passeio, comparar o que estava na tela com aquilo que as palavras haviam construído na minha imaginação.

A leitura ganhou outro ritmo. Era como se as cidades, as estradas e as pessoas ganhassem camadas. Os encontros descritos por Saramago pareciam ainda possíveis, mesmo tanto tempo depois. Não se trata de reconhecer pontos turísticos, mas de perceber atmosferas.

Saramago sempre deixou claro que Viagem a Portugal não era um guia turístico. O que oferecia ao leitor era a sua sensibilidade de escritor, um olhar que fala de Portugal, mas que, inevitavelmente, revela quem narra.

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, o autor percorreu o país de ponta a ponta. O que emerge desse percurso é a sensação de que viajar nunca se esgota. Como o próprio Saramago escreveu, o fim de uma viagem é apenas o começo de outra.

O leitor é conduzido por caminhos humanos e naturais, descobrindo um território inesgotável, onde a beleza não está apenas nas paisagens, mas nas histórias, nos silêncios e nos detalhes quase invisíveis. O narrador em terceira pessoa acompanha um viajante que se desloca no tempo e no espaço, encontrando pessoas, igrejas, vilas, campos e cidades, sempre com a curiosidade de quem deseja compreender, não apenas ver.

O projeto de Porchat, ao transpor esse percurso para a televisão, reforça algo que o turismo contemporâneo começa a compreender melhor: viajar também é uma experiência narrativa. Quando literatura e audiovisual se encontram, o destino deixa de ser apenas um lugar e passa a ser uma história em movimento. E talvez seja isso que mais me encante nesse tipo de iniciativa. Não se trata de refazer passos, mas de reaprender a olhar.

Marcado: