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A experiência que não cabe no roteiro

Por Cibelly Correia

Há algum tempo venho percebendo que as viagens guardam uma espécie de seleção natural da memória. Nem sempre ficam as paisagens mais bonitas, os atrativos mais famosos ou os roteiros mais disputados. Com frequência, o que permanece são pequenos gestos, conversas despretensiosas e a sensação de ter sido bem recebido.

Pensei nisso recentemente ao lembrar de duas hospedagens que, embora separadas por quilômetros e contextos muito diferentes, têm algo em comum: entendem que acolher também faz parte da experiência turística.

Sítio Casa de Vó, em Areia (PB)

Em Areia, no Brejo paraibano, o Sítio Casa de Vó não tenta ser outra coisa além do que é. E talvez esteja aí sua força. Entre chalés, hotel de barracas, glamping e uma gastronomia que valoriza sabores e referências da região, existe um esforço visível de manter viva uma identidade. Não se trata apenas de oferecer conforto, mas de criar conexão com o território. A cada detalhe, fica a impressão de que o visitante é convidado a conhecer um modo de viver, e não apenas um lugar para se hospedar.

Lembrei então de uma frase que escutei recentemente: as pessoas viajam para conhecer o novo. É verdade. Mas também viajam em busca de algo que as faça sentir pertencentes, ainda que por alguns dias.

Essa mesma sensação me acompanhou em Gramado, no Hotel Canto Verde. Um empreendimento familiar que atravessa gerações e que parece ter entendido, há muito tempo, que hospitalidade não é um serviço; é uma cultura. Entre as lembranças que trouxe de lá, uma das mais marcantes é a de Dona Noeli. Antes de preparar algumas refeições, ela costuma perguntar de onde vêm os hóspedes. A ideia é simples: trazer para a mesa um sabor que remeta à terra de cada visitante. No meu caso, foi o cuscuz.

Hotel Canto Verde, em Gramado

 

Sempre um recadinho do Hotel Canto Verde

Pode parecer apenas um detalhe. Mas são justamente esses gestos, quase imperceptíveis, que transformam uma estadia em experiência e fazem um lugar permanecer na memória.

Num setor que frequentemente mede resultados por ocupação, fluxo de visitantes e impacto econômico, existe um elemento difícil de quantificar, mas impossível de ignorar: o afeto. Não como sentimentalismo, mas como estratégia de valorização da identidade local, de construção de vínculos e de diferenciação dos destinos.

No fim, percebo que não me lembro apenas dos quartos onde fiquei ou das vistas que encontrei pela janela. Lembro das pessoas que transformaram aqueles espaços em algo maior do que uma hospedagem.

E talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes do turismo: o que realmente nos faz querer ficar em um lugar? A estrutura que ele oferece ou a forma como nos faz sentir acolhidos, mesmo estando longe de casa?

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