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Turismo gastronômico na Paraíba: pequenas cidades valorizam sabores e tradições locais

Um bolo assado no forno a lenha, um café produzido na propriedade rural, um doce preparado com receita centenária. Em muitas pequenas cidades, são esses sabores que transformam uma simples viagem em uma experiência inesquecível. Cada vez mais, a gastronomia deixa de ser apenas um complemento do roteiro turístico para se tornar um dos principais motivos que levam visitantes a conhecer destinos onde a cultura ainda é preservada à mesa.

Para o chef Adilson Santana, a comida vai muito além do prato servido ao visitante. Ela é uma expressão da identidade de um povo e uma forma de apresentar o território a quem chega.

“A comida cria conexões do ambiente com o ser. Ela expressa o território, as pessoas, as tradições alimentares e, principalmente, algo intangível, que é o cuidado e o carinho que o povo local tem com os visitantes”, afirma.

Na avaliação do chef, o turismo gastronômico começa antes mesmo de o turista sentar à mesa. Ele nasce no trabalho dos agricultores familiares, dos pequenos produtores, das cozinheiras tradicionais e das comunidades que preservam receitas, ingredientes e modos de fazer transmitidos ao longo de gerações.

Chef Adilson Santana


Integrante do movimento Slow Food, Adilson defende que fortalecer essa cadeia produtiva significa preservar a cultura e a economia dos territórios.

“A diversidade alimentar, assim como o artesanato, a música e outras expressões culturais, nasce da forma tradicional de convívio com o meio. Valorizar e preservar esses saberes fortalece as microeconomias locais e garante um desenvolvimento baseado na sustentabilidade.”

O turista procura aquilo que não encontrai em casa

Para Adilson, um dos maiores desafios do turismo gastronômico é evitar que a cozinha tradicional seja substituída por tendências que poderiam estar em qualquer cidade do mundo.

“Não podemos deixar que a comida contemporânea interfira na comida tradicional. Isso seria um apagamento cultural. O turista não viaja para encontrar no interior a mesma fatia de red velvet que ele compra no shopping da cidade onde mora.”

Segundo o chef, quem visita uma pequena cidade busca exatamente aquilo que não encontra nos grandes centros: o bolo de milho preparado com ingredientes da região, o pé-de-moleque feito com massa puba da casa de farinha, a cocada artesanal, o doce de jaca e tantas outras receitas que contam a história daquele lugar.

Da agricultura familiar ao prato

A identidade gastronômica de um destino também passa pelas feiras livres, quintais produtivos, casas de farinha e propriedades rurais. É nesse contato com quem produz os alimentos que o turista compreende a origem dos ingredientes e cria uma conexão mais profunda com o território.

Como exemplo, Adilson cita a Rota Ecogastronômica do Curimataú Paraibano, que envolve os municípios de Araruna, Cacimba de Dentro e Damião.

Durante o roteiro, os visitantes conhecem agricultores familiares, acompanham o cultivo dos alimentos, visitam atrativos naturais, participam da torra de café agroecológico e encerram a experiência em restaurantes e cafeterias que utilizam justamente os produtos apresentados ao longo da visita.

“Quando o turista conhece quem produz o alimento, vê como ele é cultivado e depois encontra esse ingrediente no prato, cria uma conexão muito maior com o destino.”

Quilombo Cruz da Menina transforma tradição em oportunidade

Adilson e as mulheres do Quilombo Cruz da Meninw

Outra experiência marcante na trajetória do chef aconteceu no Quilombo Cruz da Menina, em Dona Inês, no Brejo paraibano. No projeto Wajeun, coordenado pela chef alagoana Mãe Neide, Adilson realizou oficinas gastronômicas voltadas à geração de renda para mulheres da comunidade.

As capacitações incluíram a produção de linguiças artesanais, munguzá salgado e sobremesas elaboradas com ingredientes cultivados no próprio quilombo, como milho, café agroecológico, mel de abelha, umbu e carne suína.

Entre as criações está a sobremesa autoral Luar do Sertão, preparada com bolacha sorda — tradicionalmente feita com rapadura —, café e mel de abelha, além de uma torta de chocolate branco com umbu.

A cozinha de raiz é o maior diferencial da Paraíba

Ao analisar o cenário do turismo gastronômico na Paraíba, Adilson observa que João Pessoa e Campina Grande possuem uma gastronomia contemporânea consolidada. No entanto, acredita que é no interior que a essência da culinária paraibana permanece mais preservada.

Entre os destinos que se destacam, ele cita Areia, pela valorização da cozinha regional; Bananeiras, pelo crescimento da gastronomia contemporânea; e Araruna, município que vem ampliando sua vocação turística sem perder a ligação com a agricultura familiar e a culinária tradicional.

“Já ouviu falar em comida de verdade? Vá a um restaurante rural, conheça a cozinheira que prepara aquilo que planta e colhe no quintal. Você vai encontrar muito mais do que uma boa refeição. Vai encontrar acolhimento, carinho, memória e terroir.”

As pequenas cidades encontram na gastronomia um dos seus maiores patrimônios. Oferecem histórias, identidade cultural e um modo de vida que transforma cada refeição em uma experiência capaz de permanecer na memória do turista muito depois da viagem terminar.

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