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F1: O Filme – Adrenalina até para leigos

Por Manu Mariz

Já está nos cinemas F1: O Filme, estrelado e produzido por Brad Pitt, com direção de Joseph Kosinski, conhecido por Top Gun: Maverick. O elenco equilibra bem diferentes gerações, com Javier Bardem, sempre seguro em cena, e Damson Idris, uma grata surpresa. O que parecia mais um filme sobre carros se revela, na verdade, como uma porta de entrada para lembranças adormecidas e sensações que pareciam esquecidas.

Confesso que entrei na sala com um pé atrás. Já vi muita coisa em filmes de ação e geralmente eles seguem um percurso previsível. Mas bastaram os primeiros minutos, com o som do motor estourando nas caixas e a trilha sonora impactante de Hans Zimmer, para que eu percebesse que ali havia algo além. O filme nos transporta para dentro delas. Foram usadas doze câmeras nos carros, algumas delas iPhones, colocadas de maneira tão precisa que temos a impressão de estar dirigindo ou no banco do carona. A imersão é tão grande que a poltrona parece tremer junto com os pneus no asfalto.

E não é preciso entender nada de Fórmula 1 para embarcar. Mesmo quem nunca soube o que é uma volta rápida vai conseguir acompanhar tudo com naturalidade. Isso se deve, em parte, à presença ativa de Lewis Hamilton na produção e à consultoria da FIA, que garantem realismo nas pistas e clareza no roteiro. As cenas foram gravadas em corridas reais, com equipes reais, o que deixa tudo ainda mais envolvente. Os detalhes são explicados à medida que acontecem, sem didatismo nem enrolação.

Claro que o roteiro carrega seus clichês. A rivalidade entre pilotos, os dramas pessoais, a superação, o romance, as frases ensaiadas que a gente já escutou antes. Mas, curiosamente, nada disso incomoda. Está tudo na medida, bem distribuído entre os personagens, e não tira o foco do que o filme quer mesmo entregar: adrenalina, tensão, emoção.

Só que o que me tocou de verdade não foram os carros. Foi a memória. Durante os 124 minutos, voltei no tempo. Lembrei dos domingos de manhã na frente da televisão. Primeiro vinha Pequenas Empresas Grandes Negócios. Depois começava a Fórmula 1. E lá estava Ayrton Senna, dirigindo como se fosse de outro mundo. Eu era completamente fascinada por ele. No dia em que ele morreu, eu estava assistindo. Após o trágico episódio, nunca mais consegui assistir a uma corrida. Algo se quebrou ali.

Com o tempo, a Fórmula 1 foi deixando de ser paixão para virar negócio. Não consegui perdoar quando Rubinho teve que deixar Schumacher passar. Assim como abandonei o futebol depois da Copa da França. E o UFC, depois daquela luta estranha do Anderson Silva. Tudo foi virando performance, contrato, lucro. A alma foi saindo de cena.

Mas esse filme conseguiu algo que eu não esperava. Por duas horas, torci de novo. Me envolvi com as disputas. Senti de novo aquele frio na barriga que só quem já amou esse esporte entende. Não, não vou voltar a acompanhar como antes. Mas por um instante, voltei a ser aquela criança que acordava cedo no domingo para ver o mundo correr. E só por isso, já valeu muito a pena.

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