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O legado moldado à mão: empreendedorismo e resistência no Quilombo do Talhado

No Sertão da Paraíba, as Louceiras do Talhado transformaram um saber ancestral em fonte de renda, autonomia feminina e desenvolvimento comunitário, mantendo viva uma tradição quilombola que atravessa gerações.

O barro ainda está úmido quando Gileide Ferreira começa a moldar mais uma peça. Sentada no galpão onde funciona a Associação Comunitária das Louceiras Negras da Serra do Talhado, em Santa Luzia, no Sertão paraibano, ela repete um movimento aprendido ainda na infância, observando as mulheres mais velhas da família transformarem a terra em utensílios que atravessariam gerações. O resultado de um conhecimento ancestral transmitido de mães para filhas há séculos.

Enquanto suas mãos dão forma a uma panela de barro, Gileide fala com orgulho sobre a herança que recebeu. Ela é a quarta geração de louceiras da família e hoje preside uma associação formada por vinte mulheres quilombolas que encontraram no artesanato uma fonte de renda e uma forma de preservar a própria identidade.

“Tenho orgulho de pegar um torrão de barro do chão e transformar numa peça tão bonita. É um trabalho que vem de geração em geração e representa quem nós somos”, afirma.

O barro como herança

Louceiras do Talhado. Foto: Thiago Rodrigues

A história das louceiras do Talhado é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre tradição, empreendedorismo e resistência. Em uma região marcada por dificuldades econômicas e pela escassez de oportunidades, essas mulheres transformaram um saber ancestral em uma atividade produtiva capaz de garantir sustento para dezenas de famílias. Hoje, as peças produzidas pela associação circulam em feiras de artesanato, eventos culturais e chegam a diferentes estados do Nordeste, ampliando a visibilidade de uma comunidade que durante muito tempo permaneceu distante dos grandes centros econômicos.

Grande parte dessa trajetória está ligada à figura de Rita Maria Ferreira, conhecida por todos como Rita Preta. Considerada uma das principais lideranças da comunidade, ela compreendeu muito antes de o conceito de empreendedorismo feminino ganhar espaço nos debates públicos que a tradição herdada dos antepassados poderia representar uma oportunidade de desenvolvimento econômico para as famílias quilombolas.

Foi Rita quem incentivou outras mulheres a ampliar a produção das peças de barro e buscar novos espaços de comercialização. Seu objetivo era garantir que aquele conhecimento não desaparecesse e, ao mesmo tempo, criar alternativas de renda para as futuras gerações. O resultado desse trabalho é visível até hoje. Mesmo após sua morte,  seu legado continua vivo nas mãos das mulheres que seguem reproduzindo as técnicas aprendidas com ela.

Gileide reconhece que boa parte do que a associação conquistou tem origem na visão de futuro da avó.

Gileide em frente a arte da Associação, que representa Rita Preta
Foto: Cibelly Correia

“Rita Preta foi uma mulher guerreira. Ela acreditava que nossa cultura precisava ser preservada e que as mulheres do quilombo tinham capacidade de viver do próprio trabalho. Tudo o que construímos hoje começou com ela”, destaca.

A continuidade desse legado, entretanto, também foi marcada por momentos difíceis. Após a morte de Rita Preta, outra liderança importante assumiu papel de destaque na organização da associação: Maria do Céu, irmã de Gileide. Responsável pela administração do grupo, ela ajudou a fortalecer a comercialização das peças. Sua trajetória foi interrompida de forma trágica em 2013, quando foi vítima de feminicídio.

A perda abalou profundamente a comunidade, mas também reforçou o compromisso das mulheres em manter vivo o trabalho construído ao longo de décadas. Foi nesse contexto que Gileide assumiu a presidência da associação. Desde então, passou a conduzir a produção artesanal e as estratégias de fortalecimento do grupo, buscando ampliar mercados e garantir que a tradição permanecesse economicamente viável para as futuras gerações.

A missão exige dedicação diária. As atividades das louceiras começam por volta das cinco horas da manhã e seguem até o final da tarde. Para produzir uma única panela de barro são necessárias 21 etapas, desde a retirada da matéria-prima até a queima final da peça. Com exceção da trituração do barro, praticamente todo o processo continua sendo realizado manualmente, preservando técnicas transmitidas entre mães, filhas, netas e sobrinhas ao longo de gerações.

O resultado desse trabalho são panelas, pratos, travessas, chaleiras, jarros, tigelas e oratórios que carregam muito mais do que valor comercial. Cada peça representa a continuidade de um conhecimento tradicional e a afirmação da identidade cultural de uma comunidade remanescente quilombola reconhecida pela Fundação Cultural Palmares.

Os desafios de empreender sendo mulher e quilombola

Apesar do reconhecimento conquistado ao longo dos anos, a trajetória das louceiras continua marcada pelo enfrentamento ao preconceito. Para Gileide, o racismo e a discriminação social ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres negras da comunidade.

“Já passei por muitas situações de preconceito. Mas nós aprendemos a nos posicionar e a defender nosso espaço. Não é pouca coisa que derruba as mulheres negras do Talhado”, afirma.

Para a secretária de Cultura e Turismo de Santa Luzia, Teresa Nóbrega, a história das louceiras demonstra como tradição e empreendedorismo podem caminhar juntos. Segundo ela, o artesanato produzido na comunidade representa uma atividade econômica que garante sustento para dezenas de famílias quilombolas e contribui para a preservação de uma herança histórica construída ao longo de gerações.

Teresa observa que a permanência dessa atividade exige esforço constante das artesãs. Em sua avaliação, além dos desafios comuns ao mercado, as mulheres da comunidade enfrentam obstáculos relacionados à invisibilidade histórica das populações quilombolas e à dificuldade de inserção em espaços de comercialização cada vez mais competitivos.

“O produto que sustenta essa comunidade é a própria arte. Não é fácil para um quilombola conquistar espaço e reconhecimento. É preciso muita força, coragem e determinação para se posicionar no mercado e fazer com que esse trabalho seja valorizado da forma que merece”, ressalta Teresa Nóbrega.

Segundo a secretária, a valorização das louceiras também passa pelo reconhecimento da história da comunidade. Ela lembra que a Serra do Talhado tem sido retratada ao longo das décadas em produções audiovisuais que ajudaram a projetar a cultura local e o empreendedorismo dessas mulheres para além das fronteiras da Paraíba.

O exemplo mais conhecido é o documentário Aruanda, dirigido por Linduarte Noronha em 1960 e considerado um dos marcos do Cinema Novo brasileiro. Mais recentemente, produções dedicadas às trajetórias de Rita Preta e Maria do Céu também contribuíram para ampliar a visibilidade da comunidade.

“Esses registros ajudam a mostrar a força e a resistência desse povo. Quando as pessoas conhecem essa história, passam a enxergar o trabalho das louceiras de uma forma diferente, compreendendo a importância cultural e social que existe por trás de cada peça produzida”, afirma.

O turismo como aliado da tradição

Quilombo do Talhado
Foto: Thiago Rodrigues

O fortalecimento da atividade também passou a contar com um importante aliado: o turismo. A vivência nos quilombos rural e urbano do Talhado foi inserida na Rota do Bioma da Caatinga, iniciativa desenvolvida pelo Sebrae Paraíba no Vale dos Sertões. Com isso, visitantes passaram a ter a oportunidade de conhecer de perto o processo de produção das peças, ouvir as histórias das artesãs e compreender a importância cultural da comunidade.

Segundo Thiago Rodrigues, agente de roteiros turísticos do Sebrae Paraíba, a inclusão das louceiras no roteiro contribui diretamente para fortalecer o empreendedorismo local ao transformar a produção artesanal e a memória da comunidade em experiências turísticas. “A chegada de visitantes amplia as oportunidades de comercialização das peças, gera renda para as artesãs e incentiva as novas gerações a aprender o ofício. Ao mesmo tempo, o turismo ajuda a preservar uma tradição cultural que faz parte da identidade da Paraíba”, explica.

Mais de seis décadas depois de terem sido retratadas em Aruanda, as mulheres da Serra do Talhado continuam escrevendo sua própria história. Se antes as imagens do documentário revelavam um cotidiano marcado pela luta pela sobrevivência, hoje ajudam a compreender a dimensão do legado construído por gerações de artesãs que transformaram um conhecimento ancestral em instrumento de desenvolvimento econômico e afirmação cultural.

Nas mãos das louceiras do Talhado, o barro continua sendo transformado em panelas, travessas e potes. Mas, acima de tudo, continua sendo moldado como símbolo de resistência, autonomia e pertencimento. Cada peça que deixa o galpão da associação carrega a marca do trabalho artesanal de mulheres que encontraram na tradição uma forma de construir futuro sem abrir mão de suas raízes.

Por Cibelly Correia

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