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Duas vezes no Caminho de Santiago Compostela: o que muda quando a rota muda?

A primeira vez que o turismólogo Ayron Kerlly ouviu falar no Caminho de Santiago de Compostela foi aos 18 anos. A leitura de “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, despertou a curiosidade pela rota cercada de história, espiritualidade e misticismo. A ideia ficou guardada por anos, até que virou passagem aérea, mochila nas costas e quilômetros percorridos.

Hoje, ele já fez o Caminho de Santiago duas vezes. Na primeira, percorreu o Caminho Central Português. Na segunda, escolheu uma experiência bem diferente: o Caminho Primitivo, que parte de Oviedo, na Espanha, e segue até Santiago de Compostela.

Entre uma viagem e outra, mudou a rota, mudou a preparação e, principalmente, mudou a maneira de olhar para a experiência.

A primeira viagem surgiu quase por acaso. Ayron encontrou passagens com um preço interessante e comentou com amigos que também tinham vontade de fazer a peregrinação. Dois aceitaram o convite e os três seguiram juntos. O planejamento não foi dos mais elaborados. Enquanto os amigos já pesquisavam sobre o percurso, Ayron embarcou praticamente para descobrir o caminho enquanto o fazia.

O Central Português acabou sendo também um aprendizado. Depois de experimentar a rotina de acordar, caminhar, carregar a mochila e chegar ao próximo destino, veio a vontade de conhecer outra face da peregrinação.

Foi aí que entrou o Caminho Primitivo.

Com cerca de 314 a 319 quilômetros, dependendo do trajeto e das variantes, o Caminho Primitivo atravessa as montanhas das Astúrias antes de chegar à Galícia. É marcado por subidas, descidas, áreas rurais e trechos em que o peregrino pode passar longos períodos caminhando sozinho.

Para Ayron, justamente aí estava parte do encanto.

“Eu busquei esse exatamente pelo grau de dificuldade e pela beleza, porque ele traz muito mais ruralidade”, explica.

A escolha também teve relação com a história da rota, tradicionalmente associada ao rei Afonso II e considerada o primeiro caminho de peregrinação a Santiago.

Dessa vez, a preparação foi diferente. Ayron pesquisou altimetrias, dificuldades, hospedagens e logística. Mas descobriu que se preparar para o Caminho não significa tentar controlar tudo. Um dos principais cuidados foi com a mochila. Nas duas viagens, ele preferiu carregar os próprios pertences e adotou como referência manter o peso próximo de 10% do peso corporal. Na prática, a maior dificuldade não é decidir o que levar, mas o que deixar.

“Com uma mochila de 7 quilos você vive. Durante o percurso, aquilo que normalmente parece indispensável vai perdendo importância. O peregrino passa a conviver apenas com o que realmente precisa”, comenta

O corpo aprende a encontrar seu ritmo

Caminhar vários quilômetros todos os dias exige preparação física, mas Ayron percebeu que existe outro aprendizado importante: descobrir o próprio ritmo. Ele não teve problemas com bolhas ou calos, mas sentiu dores em um dos tornozelos e o peso da mochila afetou costas e ombros em alguns momentos. Mais do que resistência, é preciso saber quando caminhar, quando parar e quanto descansar.

“Você tem que ter esse acerto no ajuste da mochila, na distribuição do peso, uma bota que você já tenha amaciado no Brasil para não ter surpresas”, explica.

Para ele, o desafio também está em entender que o caminho não precisa ser vencido de uma só vez. Cada etapa tem seu tempo.

Sozinho, mas nunca isolado

Uma das experiências mais curiosas do Caminho Primitivo é a relação entre solidão e companhia. Há momentos em que o peregrino caminha sozinho por longos trechos. E, conforme os dias passam, os mesmos rostos começam a aparecer novamente. Pessoas de diferentes nacionalidades, inicialmente desconhecidas, passam a ser familiares. Elas estão no mesmo albergue, aparecem na mesma parada e chegam aos mesmos vilarejos. Aos poucos, cria-se uma espécie de grupo que não foi planejado.

“O Caminho é paradoxal: ainda que se caminhe só, nunca se está verdadeiramente isolado”, diz Ayron.

No início, a preocupação é chegar, cumprir a distância do dia e encontrar um lugar para descansar. Quando Santiago começa a se aproximar, porém, acontece o contrário: surge a vontade de prolongar o percurso. É como se, depois de tantos dias desejando chegar, o peregrino também não quisesse que aquilo terminasse.

Um caminho que acolhe quem passa

Para Ayron, observar a estrutura criada ao redor da peregrinação foi uma experiência à parte. Mesmo entre montanhas, bosques e pequenos vilarejos, as setas amarelas e a vieira, símbolo tradicional do caminho, ajudam a orientar o peregrino.

“É impressionante como eles montaram uma infraestrutura de apoio ao peregrino e de sinalização que você não precisa de guia.”

Mas a estrutura não está apenas nas placas. Ela também aparece na relação com os moradores. Em pequenos povoados, Ayron encontrou pessoas oferecendo água, frutas e informações, apontando o caminho ou simplesmente cumprimentando quem passava e desejando um “bom caminho”.

A experiência também permitiu observar como território, cultura, história, infraestrutura e comunidade podem fazer parte de uma mesma rota turística. Nas Astúrias e na Galícia, a gastronomia aparece como outra maneira de conhecer o território. Frutos do mar, preparos tradicionais e, especialmente nas Astúrias, a cultura da cidra fazem parte da experiência.  As paisagens, a comida, as pessoas e os costumes deixam de ser elementos separados.

O que fica quando o caminho termina

Depois de duas experiências, Ayron fala sobre o Caminho como uma viagem com propósito. Existe um objetivo, mas também a necessidade de aceitar que o percurso pode apresentar situações que não estavam previstas. Por mais planejamento que exista, sempre haverá algo novo. Outro aprendizado está na relação com o essencial. Uma mochila pequena obriga o viajante a perceber quantas coisas carrega sem realmente precisar delas.

Décadas depois daquela primeira leitura de “Diário de um Mago”, Ayron finalmente conheceu o caminho que havia despertado sua curiosidade na juventude. A experiência real é diferente da literatura, mas a geografia, os rituais, a paisagem e a chegada a Santiago fazem com que as duas experiências se encontrem por alguns instantes.

Antes de partir: dicas de quem já fez o caminho duas vezes

Para quem pensa em fazer o Caminho de Santiago, Ayron recomenda entender primeiro que a experiência exige afinidade com caminhada.

“Se você gosta de caminhar, gosta de natureza, história, geografia, espiritualidade, o caminho vale muito a pena.”

Entre os cuidados que considera importantes estão:

• Escolher um bom calçado e usá-lo antes da viagem.

• Investir em uma mochila confortável e aprender a ajustá-la corretamente.

• Levar apenas o necessário. Quanto menos peso, melhor.

• Pesquisar distâncias, altimetrias, hospedagens e pontos de parada.

• Fazer preparação física, principalmente para rotas mais exigentes como o Caminho Primitivo.

• Estar preparado para o cansaço, mudanças de planos e situações inesperadas.

• Pesquisar as opções de hospedagem. No Primitivo, há albergues por doação, municipais e privados, com diferentes formas de funcionamento e reserva.

• Entender que o Caminho pode ser feito sem guia, graças à sinalização e à estrutura disponíveis.

• Não tentar reproduzir a experiência de outra pessoa. Cada peregrino encontra um significado diferente na caminhada.

No fim, não existe um único Caminho de Santiago. Existe o caminho que cada pessoa constrói enquanto percorre a rota.

Ayron começou querendo conhecer uma rota que durante anos existiu primeiro na imaginação. Duas peregrinações depois, voltou com uma compreensão diferente sobre distância, planejamento, turismo, cultura e, principalmente, sobre aquilo que realmente é necessário para continuar caminhando. Porque chegar a Santiago é apenas uma parte da história. A outra acontece enquanto se caminha.

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